Não Existe Verdade | Relativismo Epistemológico
- Pedro Cortat
- 18 de fev.
- 6 min de leitura
Atualizado: 26 de fev.
O que significa dizer que algo é verdade? Será que o que é verdadeiro para uma pessoa pode não ser para outra? Podemos afirmar que existe uma verdade absoluta, ou será que toda verdade é relativa ao contexto e à perspectiva de cada um? Essas questões foram amplamente debatidas pelos sofistas na Grécia Antiga e continuam a ser relevantes atualmente, especialmente diante de debates sobre ciência, cultura e política.
Na Atenas do século V a.C., a filosofia estava em expansão, e muitos intelectuais passaram a se dedicar ao ensino da retórica e da argumentação. Esses professores eram chamados de sofistas. Diferente de filósofos como Sócrates e Platão, os sofistas não buscavam encontrar uma "verdade absoluta", mas sim ensinar a arte da persuasão.
Os sofistas acreditavam que a verdade era relativa e dependia do ponto de vista de quem a enunciava. Ou seja, não existia uma única verdade objetiva e universal, mas múltiplas perspectivas que poderiam ser defendidas com base na argumentação. Por isso, muitos sofistas eram contratados para ensinar jovens atenienses a falar bem e convencer os outros em debates públicos.
Um dos sofistas mais famosos foi Protágoras, que cunhou a famosa frase:
"O homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto são, e das que não são enquanto não são."
Essa afirmação resume a visão relativista do conhecimento. Para Protágoras, não existe uma verdade única e objetiva, pois tudo depende da percepção individual. O que é quente para uma pessoa pode ser frio para outra; o que é justo em uma sociedade pode ser injusto em outra. Assim, a verdade não existe de forma independente, mas sempre relacionada a quem a percebe.
Essa ideia tem implicações importantes. Se cada indivíduo tem sua própria verdade, então não haveria critérios universais para distinguir o certo do errado, o verdadeiro do falso. Em termos políticos, isso significava que a persuasão e a retórica eram ferramentas essenciais, pois o que importava não era necessariamente a verdade, mas a capacidade de convencer os outros.
Outro sofista importante foi Górgias, que levou o relativismo a um nível extremo, chegando ao que chamamos de ceticismo radical. Ele formulou um argumento dividido em três partes:
P1. Nada existe. (Se algo existisse, teria que ser eterno ou ter surgido do nada, mas ambas as hipóteses são paradoxais.)P2. Se algo existisse, não poderíamos conhecê-lo. (Mesmo que algo exista, nossos sentidos e nossa mente são falhos, impedindo-nos de conhecer a realidade como ela realmente é.)P3. Se pudéssemos conhecê-lo, não conseguiríamos comunicá-lo. (A linguagem é subjetiva e limitada; cada pessoa interpreta as palavras de forma diferente, o que impossibilita uma comunicação precisa da realidade.)
Górgias questionava a possibilidade de qualquer conhecimento real e confiável. Se não podemos ter certeza de nada e nem comunicar com exatidão nossas percepções, então todo discurso sobre a verdade se torna incerto.
Relativismo Hoje:
As ideias dos sofistas continuam influenciando o pensamento moderno e aparecem em diversas áreas do conhecimento e no debate público. O relativismo pode ser observado em discussões sobre cultura, política, ciência e até no cotidiano das redes sociais. Vamos explorar alguns exemplos concretos que ilustram essa influência e os desafios que ela traz.
"Cada um tem sua verdade."
Essa afirmação sugere que todas as perspectivas são igualmente válidas, independentemente das evidências. Isso pode ser observado, por exemplo, no debate sobre saúde e medicina. Durante a pandemia da COVID-19, algumas pessoas afirmavam que vacinas eram seguras e eficazes, enquanto outras defendiam que vacinas eram prejudiciais e a doença poderia ser curada com tratamentos alternativos sem comprovação científica.
Se aceitarmos que "cada um tem sua verdade", então um cientista que passou anos estudando virologia teria a mesma credibilidade que um influenciador digital sem formação na área. No entanto, a ciência trabalha com evidências, testes e revisões rigorosas, o que a diferença de meras opiniões. O grande problema dessa visão relativista extrema é que ela pode levar à desinformação e a escolhas prejudiciais para a sociedade.
Outro exemplo ocorre no campo jurídico. Imagine um julgamento em que um acusado de um crime afirma que sua "verdade" é diferente da "verdade" apresentada pelas evidências. Se aceitarmos que cada um tem sua própria verdade sem critérios objetivos para avaliá-las, então como um sistema de justiça poderia funcionar de forma coerente?
"A verdade muda conforme a cultura."
Esse argumento relativista é mais aceitável em alguns casos, especialmente quando falamos de normas sociais e morais. O que é considerado aceitável em uma sociedade pode ser visto como imoral ou absurdo em outra.
Por exemplo, em algumas culturas ocidentais, o casamento arranjado é visto como uma violação da liberdade individual, enquanto em países do Sul da Ásia e do Oriente Médio, ainda é uma prática comum e respeitada. Outro caso é a poligamia, que é ilegal na maior parte do mundo, mas socialmente aceita em certas comunidades africanas e islâmicas.
No entanto, o relativismo cultural encontra dificuldades quando aplicado a questões universais de direitos humanos. Se afirmarmos que "a verdade muda conforme a cultura", então podemos justificar práticas como mutilação genital feminina, trabalho infantil ou perseguições religiosas, pois são "parte da cultura" de alguns grupos. Assim, surge um dilema: até que ponto devemos aceitar a relatividade das normas sociais, e em que momento devemos defender valores universais, como o direito à vida e à liberdade?
"A ciência é apenas uma narrativa entre tantas outras."
Essa ideia vem de algumas correntes filosóficas pós-modernas, que argumentam que a ciência não descobre "verdades", mas apenas constrói interpretações sobre a realidade. Esse pensamento pode ser visto em debates sobre mudança climática, evolução e até na própria natureza do universo.
Um exemplo prático está na recusa de algumas pessoas em aceitar o aquecimento global. Apesar do consenso científico sobre o impacto humano nas mudanças climáticas, há quem afirme que essa é apenas uma "narrativa" criada por interesses econômicos ou políticos. Esse relativismo pode gerar consequências sérias, como a falta de ação para mitigar problemas ambientais.
Outro exemplo ocorre na teoria da evolução. Apesar de evidências fósseis e genéticas robustas, há grupos que rejeitam a evolução em favor de teorias criacionistas, afirmando que ambas as explicações são apenas "pontos de vista" igualmente válidos. No entanto, a ciência não opera da mesma maneira que crenças pessoais ou tradições culturais: ela se baseia em experimentação, previsibilidade e revisão de erros.
Se a ciência fosse apenas mais uma narrativa, então deveríamos considerar que a astrologia tem o mesmo valor que a astronomia, ou que a alquimia tem a mesma validade da química moderna. No entanto, sabemos que certos métodos produzem resultados concretos e confiáveis, enquanto outros não.
Relativismo e a Pós-Verdade: Fake News e Manipulação da Informação
Nos últimos anos, o termo pós-verdade tem sido usado para descrever um mundo onde os fatos objetivos têm menos impacto na formação de opiniões do que apelos emocionais ou crenças pessoais. Isso pode ser visto na disseminação de fake news, onde informações falsas se espalham rapidamente e moldam o debate público.
Exemplo: Durante as eleições presidenciais de diversos países, como EUA e Brasil, houve uma enxurrada de notícias falsas sobre candidatos. Algumas pessoas acreditavam nessas informações porque se alinhavam às suas crenças, mesmo quando havia evidências claras de que eram falsas. Isso reforça o problema do relativismo extremo: se qualquer narrativa pode ser considerada válida, como distinguir o que é real do que é manipulação?
Outro exemplo relevante é a negação de eventos históricos. Há grupos que alegam que o Holocausto nunca aconteceu, mesmo com registros históricos, documentos e testemunhos abundantes. Se aceitarmos que "tudo é relativo", então qualquer evento pode ser questionado com base em crenças individuais, abrindo espaço para a distorção da história e a negação de fatos amplamente documentados.
Críticas ao relativismo:
O relativismo parece fazer sentido em muitas situações. Afinal, há de fato diferenças culturais, sociais e individuais que influenciam nossas crenças e percepções. Mas será que ele pode ser levado ao extremo?
Se afirmarmos que "tudo é relativo", isso não significa que essa própria afirmação também é relativa? Em outras palavras, se não há verdade objetiva, então nem mesmo a ideia de relativismo pode ser considerada verdadeira de forma absoluta.
Esse é um dilema clássico da filosofia: um relativismo extremo pode se autodestruir, pois se tudo for relativo, inclusive o relativismo, ele perde qualquer fundamento sólido.
Outra crítica vem da ciência: há fatos que não dependem da nossa percepção individual. A Terra gira em torno do Sol, independentemente de alguém acreditar nisso ou não. O oxigênio é essencial para a vida humana, independentemente da cultura ou da perspectiva de um indivíduo. Isso mostra que, pelo menos em algumas áreas, a verdade parece existir de forma independente de nossas opiniões.
Considerações Finais:
O relativismo pode ser útil para entender que diferentes sociedades e indivíduos possuem perspectivas distintas sobre o mundo. No entanto, levá-lo ao extremo pode gerar contradições e consequências negativas, como a impossibilidade de distinguir conhecimento legítimo de desinformação. A pergunta que surge é: devemos aceitar que a verdade é sempre relativa ou precisamos de critérios objetivos para distinguir o verdadeiro do falso? A resposta para essa questão continua sendo debatida por filósofos, cientistas e pensadores até hoje.
Referências: HUEMER, Michael. Knowledge, Reality, and Value: A Mostly Common Sense Guide to Philosophy. 1. ed. Independently published, 2021.
STICH, Stephen; DONALDSON, Tom. Philosophy: Asking Questions – Seeking Answers. 1. ed. New York: Oxford University Press, 2018.
RAUHUT, Nils Ch. Ultimate Questions: Thinking about Philosophy. 3. ed. New York: Pearson, 2012.
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