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O que é Conhecimento?

Muitas pessoas acreditam que sabem muitas coisas e também confiam que os outros sabem do que estão falando. Mas o que, afinal, significa “saber” algo? O que torna uma crença legítima o suficiente para ser considerada conhecimento? É possível ter certeza de algo e ainda assim estar enganado? Por que o conhecimento importa? Essas perguntas, aparentemente simples, formam a base de um dos ramos mais antigos e fundamentais da filosofia: a epistemologia, também chamada de teoria do conhecimento. Essa área se dedica a investigar não apenas o que é o conhecimento, mas também como o adquirimos, como o justificamos e quais são os critérios que o distinguem da simples opinião ou da crença infundada.

Pensar sobre conhecimento não é algo restrito às salas de aula ou aos tratados filosóficos. Em situações cotidianas, como confiar que a previsão do tempo está correta antes de sair para trabalhar, ou acreditar que um determinado remédio indicado por um médico é eficaz, estamos partindo de pressupostos epistemológicos. Ou seja, ligados à forma como julgamos saber algo. E em todas essas situações, o que está em jogo é a credibilidade de nossas fontes, a confiabilidade de nossos métodos e a validade das nossas conclusões.

Ao longo deste texto, vamos investigar as condições que tornam uma crença um verdadeiro conhecimento, analisando exemplos concretos da vida cotidiana brasileira e dialogando com a tradição filosófica que, desde Platão e Aristóteles até pensadores contemporâneos, tenta responder à pergunta central: o que é conhecer?


1. Tipos de conhecimento

Antes de entender o que faz algo ser conhecimento, precisamos reconhecer que nem todo conhecimento é do mesmo tipo. A filosofia costuma identificar, ao menos, três formas diferentes de conhecer:

1. Conhecimento proposicional (saber que...): trata-se de conhecer uma afirmação ou proposição verdadeira, como “Brasília é a capital do Brasil” ou “doenças transmitidas por mosquitos aumentam em tempos de chuva”. É esse tipo de conhecimento que costuma ser o foco principal da epistemologia.

2. Conhecimento prático ou de habilidade (saber como...): é o saber ligado à ação ou ao domínio de uma técnica. Por exemplo, um feirante que sabe como escolher uma melancia madura, ou uma parteira tradicional que sabe como realizar um parto sem instrumentos hospitalares. Mesmo que não consigam explicar tudo verbalmente, eles possuem um conhecimento valioso.

3. Conhecimento por familiaridade ou convivência (saber quem / saber o que...): refere-se à experiência direta ou à relação com algo ou alguém. Por exemplo, alguém que conhece pessoalmente os meandros do Mercado Municipal de Juiz de Fora, ou que sabe onde fica o cachorro quente do Klebinho, está expressando esse tipo de saber.

Apesar de todos esses modos de conhecer serem importantes, a maior parte da epistemologia moderna foca no primeiro: o conhecimento proposicional.


2. A definição tradicional

Desde a Antiguidade, filósofos têm tentado estabelecer o que exatamente diferencia o conhecimento de uma simples opinião. Afinal, qualquer pessoa pode ter uma crença, por exemplo, alguém pode acreditar que vai chover amanhã porque “está sentindo no Suvaco do boi”. Mas será que isso, por si só, é conhecimento?

A resposta clássica da filosofia veio de Platão, no diálogo Teeteto, onde ele propôs que conhecimento é “crença verdadeira justificada”. Essa definição influenciou profundamente a tradição filosófica ocidental por mais de dois milênios. Segundo ela, para alguém realmente saber algo, três elementos devem estar presentes:

i. Crença: É necessário acreditar naquilo. Não faria sentido dizer que alguém sabe algo em que não acredita. Seria absurdo dizer: “João sabe que o ônibus saiu às 14h, mas não acredita nisso”.

ii. Verdade: A crença precisa ser verdadeira. Aqui entra uma formulação clássica de Aristóteles, na Metafísica:“Dizer do que é que não é, ou do que não é que é, é falso; e dizer do que é que é, e do que não é que não é, é verdadeiro.” Em outras palavras, a verdade é a correspondência entre o pensamento e os fatos. Conhecer algo exige, portanto, que aquilo sobre o qual se pensa realmente aconteça ou exista. Se Maria acredita que o Enem será no domingo, mas a prova já aconteceu na semana anterior, sua crença é falsa. Logo, não pode ser conhecimento.

iii. Justificação: A pessoa deve ter boas razões para acreditar naquilo. É o que distingue o conhecimento de um palpite ou de uma suposição sem base. Por exemplo: imagine uma pessoa em Porto Alegre que diz saber que vai faltar luz no bairro, mas só porque ela “tem um pressentimento”. Mesmo que a energia de fato acabe, isso não torna sua crença conhecimento, pois ela não tinha um motivo razoável para acreditar, foi apenas sorte.

Essa exigência de justificação revela o ponto central: o conhecimento é público, argumentável e testável, enquanto a opinião pode ser subjetiva e sem base confiável. Uma opinião pode ser verdadeira por acaso, mas não se torna conhecimento se falta a ela uma justificativa racional. O conhecimento, ao contrário da opinião, requer que aquilo que se acredita possa ser demonstrado ou sustentado com argumentos, evidências ou métodos confiáveis. O que sabemos pode ser comunicado a outras pessoas, que, utilizando os mesmos métodos e evidências, podem chegar a conclusões semelhantes. Assim, a definição tradicional mostra por que não é suficiente apenas crer em algo verdadeiro: é preciso saber por quê essa crença faz sentido.


3. A dimensão da justificação

A exigência de justificação é talvez o ponto mais decisivo para diferenciar o conhecimento da opinião ou da adivinhação. Duas pessoas podem acreditar na mesma coisa e até acertar, mas isso não significa que ambas sabem. A diferença está no porquê elas acreditam. Imagine a seguinte situação: três pessoas Rodrigo, Pedro e Pamela estão numa padaria, e todas acreditam que a rosquinha de laranja acabou.

Só que, Rodrigo acha isso porque ela quer muito comer o bolo e já está se preparando para se frustrar. Pedro diz que acabou porque ouviu alguém comentar rapidamente algo parecido, mas não prestou muita atenção. Pamela, por sua vez, foi até o balcão, perguntou para a atendente e ouviu da funcionária que o último pedaço foi vendido há cinco minutos.

Embora os três compartilhem a crença verdadeira de que não há mais rosquinha de laranja, só Pamela realmente sabe disso. Por quê? Porque sua crença é epistemicamente justificada: ela tem uma razão confiável e direta para acreditar. Rodrigo se baseia em desejo (algo emocional), Pedro em boato (algo incerto), mas Pamela se baseia em testemunho direto e recente de uma fonte confiável.

Esse exemplo mostra que não é qualquer motivo que justifica uma crença, mas sim aquele que tem valor epistêmico. Ou seja, que contribui para tornar a crença racional e conectada à verdade. A emoção, o palpite, a superstição ou a conveniência podem até motivar crenças, mas raramente as justificam epistemicamente.

Essa distinção também é importante no cotidiano da ciência, da política e da vida pública. Por exemplo, acreditar que uma vacina não funciona porque “fulano falou” pode ou não ser conhecimento, dependendo de quem fala, com base em quê, e como essa informação foi verificada. Quando uma pessoa acredita na eficácia da vacina com base em estudos revisados, testes clínicos e recomendações científicas, essa crença é justificada e pode ser chamada de conhecimento.

Portanto, podemos dizer que a justificação epistemológica é o que amarra a crença à realidade de modo confiável. Ela funciona como um filtro: separa o que foi dito “com base em algo” do que foi dito “por dizer”. Conhecer algo, então, exige acertar pelos motivos certos, e não apenas acertar por sorte.


4. Fontes e mecanismos de justificação

Se para saber algo não basta acreditar, é preciso justificar, então surge uma pergunta fundamental: de onde vêm essas boas razões que justificam nossas crenças? A epistemologia tradicional identifica algumas fontes confiáveis de justificação, ou seja, maneiras pelas quais obtemos informações que tendem a nos aproximar da verdade. Entre as principais estão:

Percepção sensorial: aquilo que vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos ou provamos. Por exemplo, ao ver uma fila enorme na frente da farmácia popular, você tem uma boa razão para acreditar que há distribuição gratuita de algum medicamento.

Memória: lembrar que a feira do bairro acontece todo sábado é um tipo de justificação baseada na experiência passada.

Testemunho: acreditar que o imposto de renda foi prorrogado porque ouviu um aviso no rádio ou leu no site da Receita Federal.

Raciocínio ou inferência: concluir, com base no boletim meteorológico e no céu fechado, que vai chover no final da tarde.

Introspecção: saber que está com dor de cabeça ou que está se sentindo triste.

Insight racional: perceber que “todo número par maior que 2 pode ser escrito como soma de dois números primos” (embora aqui o exemplo seja uma conjectura, ele ilustra uma forma de intuição lógica, mesmo que precise de prova).

Essas fontes são valorizadas porque, em condições normais, elas tendem a nos conduzir a crenças verdadeiras. Claro que nem sempre são infalíveis, mas são melhores apostas epistemológicas do que adivinhar ou se basear em astrologia, achismo ou desejo.

Por isso, a epistemologia moderna desenvolveu teorias que explicam como as crenças se tornam justificadas:

O evidencialismo defende que uma crença está justificada quando está apoiada em boas evidências. Por exemplo, crer que uma enchente pode atingir uma área ribeirinha do Acre porque o rio já subiu cinco metros e há alertas da Defesa Civil.

O fiabilismo argumenta que crenças são justificadas quando são formadas por mecanismos confiáveis, que geralmente nos conduzem à verdade como a percepção ou a memória.

As teorias das virtudes epistêmicas afirmam que o conhecimento depende de boas práticas intelectuais, como honestidade, rigor e disposição a revisar crenças.

O funcionalismo sugere que o conhecimento é produzido quando nossos sistemas cognitivos funcionam adequadamente, como se fossem instrumentos calibrados para a verdade.


5. A falibilidade do conhecimento e o grau de justificação

Embora a justificação seja essencial para o conhecimento, ela não garante que a crença seja infalivelmente verdadeira. Essa é a ideia central do falibilismo, a noção de que podemos ter conhecimento mesmo quando, sem saber, nossa crença acaba sendo falsa.

Um exemplo histórico famoso é o caso do astrônomo italiano Galileu Galilei, que no século XVII desafiou a crença largamente aceita, de que a Terra era o centro do universo. Até então, com base em observações aparentemente diretas e evidências disponíveis, acreditava-se firmemente no geocentrismo. Mesmo assim, a comunidade intelectual da época tinha justificativas sólidas para essa crença, que depois se provaram falsas.

Além disso, a justificação não é binária, mas sim algo que ocorre em graus variados. Algumas crenças são mais bem justificadas que outras. Se uma pessoa simplesmente escuta um boato sobre uma greve de ônibus, sua crença estará pouco justificada. Por outro lado, se ela confirma a informação em múltiplas fontes confiáveis, sua justificação será mais forte.

Essa variação é importante porque o padrão para o que consideramos conhecimento não é tão rígido a ponto de impedir que consideremos que saibamos coisas comuns do dia a dia, como que “2 + 3 = 5” ou que “ontem à noite choveu” apesar da possibilidade de erros mínimos.


Considerações finais

Saber algo vai muito além de simplesmente acreditar em uma ideia, mesmo que essa ideia seja verdadeira. A filosofia nos ensina que o conhecimento é uma crença verdadeira que está apoiada em boas razões, essa combinação é o que torna o conhecimento confiável e distinto da mera opinião, do achismo ou da superstição. Além disso, sabemos que o conhecimento pode ser falível. Podemos errar, mesmo quando seguimos as melhores evidências e raciocínios disponíveis. Porém, isso não invalida o valor do conhecimento, pelo contrário, o torna um empreendimento humildade, sempre aberto a revisões e melhorias. Por fim, o conhecimento é um bem compartilhado. Ele se transmite, se discute, se prova ou se refuta e é dessa forma que avançamos em nossa compreensão do mundo, em nossas relações e em nossas práticas. Assim, entender o que é conhecer é fundamental não só para a filosofia, mas para a vida prática de todos nós.


Referências:

Descartes, Meditações.

Silva, P. (n.d.). Knowledge-first theories of justification. In J. Fieser & B. Dowden (eds.), The Internet encyclopedia of philosophy.

Plato, Teeteto.

 
 
 

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