Schleiermacher e o sentimento de Infinito
- Pedro Cortat

- 28 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 31 de jul. de 2025
Friedrich Schleiermacher desenvolveu sua filosofia da religião como uma resposta à abordagem moralista de Kant e à tradição filosófica que os precedeu. Kant havia redefinido a religião dentro dos limites da razão prática, mas Schleiermacher criticou essa redução, considerando-a um "estreitamento" que ignorava a profundidade do vínculo humano com Deus. Para ele, a religião merecia ser vista como uma dimensão autônoma da experiência humana.
Ele defendeu que religião, moral e metafísica são esferas distintas e não devem ser reduzidas umas às outras, rejeitando a visão kantiana que as enquadrava como uma extensão da moralidade. Ele via o pensamento iluminista, incluindo Kant, como falho por confundir essas fronteiras, submetendo a religião à razão prática ou à explicação metafísica do universo.
Para Schleiermacher, a religião não se trata de conhecimento racional ou um conjunto de deveres, mas sim de uma experiência originária e intuitiva. Ela se manifesta como uma vivência subjetiva que conecta a existência finita do ser humano ao Infinito, que é Deus. Essa concepção enfatiza o sentimento e a intuição como os pilares essenciais da experiência religiosa, em contraste com a razão prática defendida por Kant.
Ele argumentava que a razão não consegue estabelecer uma relação direta e intuitiva com o Absoluto, relegando Deus a um mero postulado frágil para a fé. Em contrapartida, Schleiermacher via o sentimento como a chave para essa união íntima entre o ser humano e Deus, permitindo uma apreensão que transcende a capacidade de compreensão racional. Assim, a religião não é algo que se pensa ou se faz, mas algo que se sente profundamente.
O núcleo dessa experiência religiosa é o sentimento de absoluta dependência do Infinito. É a consciência de que a existência finita do ser humano está intrinsecamente ligada ao Absoluto. Essa vivência surge de forma intuitiva, em um instante de encontro entre o sujeito e o Absoluto, anterior à reflexão ou à formulação de conceitos.
Nesse momento, o indivíduo percebe sua condição de ser finito em relação ao Infinito, uma conexão que é sentida e vivida, mas que jamais poderá ser totalmente compreendida ou explicada pela razão. A experiência religiosa, para Schleiermacher, une de forma indissociável o sentimento ( uma vivência profunda) e a intuição (a recepção pré-reflexica direta do Absoluto) nas manifestações do finito.
Schleiermacher descreve a religião como uma espécie de "trilha sonora da existência humana", que acompanha e enriquece a vida com intuição e sentimento. Assim como a música cria uma atmosfera e desperta emoções profundas sem prescrever ações, a religião oferece vislumbres do Infinito no finito.
O papel da religião é, portanto, contemplativo e receptivo, permitindo que o ser humano perceba o Absoluto mesmo nas manifestações mais cotidianas e insignificantes. Ela não busca comandar escolhas morais ou determinar verdades definitivas sobre o universo, mas sim proporcionar uma perspectiva elevada que transcende a existência finita e a conecta ao divino.
Além disso, Schleiermacher criticou a supervalorização das escrituras e tradições religiosas. Ele as considerava "monumentos" a experiências divinas do passado, registros limitados e estáticos da vivência de grandes espíritos que, em seus contextos, vivenciaram aspectos do Infinito. No entanto, essas escrituras não são manifestações diretas e absolutas de Deus.
O excesso de apego à "letra morta" das escrituras pode levar à idolatria da própria forma, desvirtuando a essência da religião. Schleiermacher sugere que a verdadeira religião reside na busca por uma conexão viva e renovada com o divino no presente, e não em meramente reverenciar ou rememorar experiências passadas. Atribuir autoridade absoluta a textos finitos reduz a infinitude de Deus.
Para Schleiermacher, a pluralidade religiosa é um testemunho da riqueza do Infinito, e não um sinal de divisão ou erro. Ele defende que nenhuma religião positiva, com suas doutrinas e ritos, pode capturar Deus em sua totalidade, pois o Infinito transcende todas as formas finitas de pensamento e simbolismo.
Cada tradição religiosa é uma tentativa parcial, mas válida, de expressar e se relacionar com o Absoluto, refletindo as diferentes sensibilidades humanas ao longo da história e cultura. Essa perspectiva implica que a diversidade religiosa não diminui a validade de nenhuma fé, mas sim demonstra como o Infinito se manifesta de múltiplas formas.
A verdadeira tolerância religiosa, então, é uma consequência natural dessa compreensão do Infinito, que não pode ser circunscrito por qualquer tradição ou cultura. Ela exige uma abertura ativa para reconhecer e valorizar a experiência religiosa do outro, em vez de uma mera convivência passiva.
A intolerância religiosa, por sua vez, nasce de um erro fundamental: a idolatria, que é a confusão entre doutrinas e instituições humanas com a realidade última de Deus. Achar que a própria religião capturou a totalidade do Infinito é uma pretensão que ignora a limitação humana diante do divino.
Schleiermacher nos convida a superar essas limitações, reconhecendo que todas as religiões, apesar de suas diferenças de expressão, compartilham um núcleo essencial: o desejo e a necessidade humana de se conectar com o Infinito. Esse caráter universal e inclusivo da religião, baseada no sentimento de absoluta dependência, reforça a importância da tolerância e do respeito mútuo.
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